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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A lógica do voto nulo


Hamilton Octavio de Souza

Há muitos anos que a opção pelo voto nulo não aparecia com tanta força. Muitos parlamentares, militantes partidários e marqueteiros – de diferentes legendas – comentam que, no contato com o eleitorado e nos dados fornecidos pelas pesquisas qualitativas, a defesa do voto nulo ganha força entre os eleitores. Cada dia mais os grupos da Internet e as pequenas organizações políticas de esquerda pregam abertamente a opção pelo voto nulo.
A última eleição em que o voto nulo ganhou expressão nacional foi na de 1970, durante o governo Garrastazu Médici, no período de maior violência da ditadura militar (1964-1985). Antes disso, o voto nulo apareceu com freqüência nos momentos denominados “democráticos” – nos quais havia uma limitada liberdade partidária, poderosa influência econômica e controle dos “currais eleitorais” pelo coronelismo regional. Várias vezes o voto nulo representou uma reação de deboche do povo contra a mesmice do jogo político nacional.
A liberdade do eleitor para votar em quem quisesse, inclusive para poder anular o seu voto, ganhou destaque no rinoceronte Cacareco e num macaco conhecido do zoológico do Rio de Janeiro, ou em personagens míticos como Che Guevara, ou mesmo em figuras locais utilizadas pelos eleitores para manifestar o seu descontentamento com a eleição oficial. No protesto de 1970 estava implícita a denúncia da farsa eleitoral montada por Arena e MDB, na época ambos coniventes e dóceis à ditadura militar.
O voto nulo de agora também está repleto de sentidos – fartamente fundamentados na realidade brasileira, na história recente, nos fatos políticos e no quadro da representação oferecida ao povo brasileiro. Está na cara que o País vive um momento de esgotamento de alternativas, que a ausência de projetos nacionais colocou os principais partidos no mesmo saco do neoliberalismo. O governo Lula, do PT, decepcionou não porque tenha ousado em mudar, mas por ter sido uma continuidade mascarada do governo FHC, do PSDB. Ambos caíram no mesmo campo da macro-economia ditada pelo capital financeiro e do reparo superficial das mazelas sociais. Nada mais do que isso.
Outro sentido da opção pelo voto nulo está no resgate da ética – que muita gente está buscando lá no fundo da alma (e do baú) para mostrar, com coragem, que a política não é o vale-tudo que está sendo praticado, não é o conchavo conciliador das elites costurado no roubo do dinheiro público, não é o discurso demagógico e enganador maquiado pelos mercenários da mídia.
Além disso, a opção pelo voto nulo parece carregar uma percepção fatal para o atual sistema de representação na democracia liberal-burguesa: é a constatação de que o voto não muda nada ou muda muito pouco, e que a mudança no Brasil precisa de mais força do que o voto depositado na urna. O recado desse voto nulo é uma consciente opção de que não dá mais – no limite da liberdade e do poder de cada eleitor – para legitimar o jogo que aí está, com partidos sem programas e políticos sem escrúpulos.
O voto nulo de 2006 é um voto perfeitamente sintonizado com a realidade brasileira. Se o recado será entendido, é uma outra história.

P.S. – Apesar de refletir sobre a lógica do voto nulo, não tenho posição pessoal totalmente fechada com essa opção, mesmo porque reconheço valores em vários candidatos e tenho grande admiração e simpatia por Plínio de Arruda Sampaio e Ivan Valente.

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